|
julianaferreira
|
 |
« em: Novembro 18, 2008, 10:19:59 » |
|
A Organização Mundial de Saúde recomenda o leite materno como alimento exclusivo até aos seis meses de idade do bebé e depois disso, como complemento da alimentação, até aos dois anos. Mas a perspectiva de ver mamar um bebé que já anda e já fala é, para muita gente, assustadora ou até obscena. E surgem observações sobre os possÃveis traumas que essa situação pode trazer para as crianças. Parece que foi há milénios que o normal era amamentar as crianças até terem um ano ou dois. Mas não. Estima-se que no inÃcio do século XX 58 por cento dos bebés eram amamentados para além dos 12 meses. Hoje a realidade é bem diferente, mas assiste-se a um regresso lento ao aleitamento materno. A tendência é para que cada vez mais mães amamentem e por perÃodos cada vez mais longos. E, então, muitas delas perguntam-se: até quando?
BenefÃcios para a mãe e para o bebé: quanto mais tempo melhor «A amamentação tem um efeito dose-resposta, ou seja, quanto mais tempo se der de mamar, maiores serão os benefÃcios», afirma Leonor Levy, pediatra, professora na Faculdade de Medicina de Lisboa e uma das autoras do Manual de Aleitamento Materno (com distribuição gratuita nos Centros de Saúde de todo o paÃs). Cada par mãe-bebé terá de encontrar a sua resposta à questão "até quando amamentar?" - de preferência livres de pressões exteriores. Um critério possÃvel é seguir os conselhos do pediatra ou médico assistente do bebé, mas convém saber que, nesta matéria, não há consenso. A Academia Americana de Pediatria recomenda a amamentação pelo menos até aos doze meses e, a partir daÃ, enquanto a mãe e o bebé desejarem. Esta parece não ser ainda a «bitola» da generalidade dos pediatras portugueses. Quanto à recomendação da OMS, que a UNICEF reitera baseada em estudos recentes sobre os benefÃcios da amamentação prolongada, é vista por cá como sendo dirigida sobretudo aos paÃses em desenvolvimento, onde a mortalidade infantil aumentará brutalmente se as taxas de amamentação diminuÃrem.
Não há regras Para Leonor Levy, mais do que pôr limites, «interessa ajudar a mãe a cumprir o seu projecto. Hoje, as mães que trabalham têm direito a optar por uma licença de parto de cinco meses (com o vencimento a 80%). No caso de poderem juntar à licença um mês de férias, podem ficar com o bebé até aos seis meses. Se dar de mamar até aos seis meses em exclusivo é o seu projecto, já podem fazê-lo. A nossa obrigação, enquanto profissionais de saúde, é ajudá-las a cumprir esse projecto». Cristina Leite, moderadora da La Leche League, subscreve esta posição, afirmando que não há regras. «O que a mãe sente deve ser mais importante do que tudo o resto, mas na nossa sociedade o que ela sente é muito condicionado». «Nas reuniões da La Leche League nunca dizemos "tem de ser assim". A ideia é que cada pessoa descubra como quer fazer e que tenha algum apoio. Ninguém é melhor ou pior mãe por dar de mamar mais ou menos tempo e não deve haver pressões em nenhum sentido». Partindo deste pressuposto, o que dizer à s mães que continuam a amamentar para além dos seis meses? Desde logo, que o leite materno continua a ter, do ponto de vista fÃsico, benefÃcios importantes para o seu bebé. Factores imunológicos, benefÃcios para o desenvolvimento neurológico, diminuição de riscos de infecções continuam a ser vantagens para quem mama até mais tarde. Mas, nas palavras de Cristina Leite, «ninguém dá de mamar até aos dois anos do bebé só porque os investigadores afirmam que é o melhor para o desenvolvimento do sistema nervoso central. É preciso que tanto a mãe como o bebé queiram.» Que é preciso os dois quererem é também a opinião do pediatra Fernando Chaves: «A amamentação é como um namoro. Quando um dos dois não quer, não acontece.»
O desmame tardio pode ter consequências negativas? Para as mães que amamentam para além dos seis meses, essa é sem dúvida uma experiência agradável e positiva. E, ao contrário do que se possa pensar, este não é um privilégio que só alguns podem ter. Nem só as mães que não trabalham fora de casa podem optar por continuar a amamentar. Depois da introdução dos alimentos sólidos, e mesmo estando a mãe longe do bebé o dia inteiro, é possÃvel continuar a dar de mamar duas ou três vezes por dia, de manhã e à noite. Esta rotina, que pode manter-se durante muitos meses, é reconfortante para o bebé, mas também para a mãe. Este tempo único reafirma o vÃnculo entre mãe e bebé. Para Fernando Chaves, «o desmame completo é como cortar definitivamente o cordão umbilical». Há casos em que este corte tem de ser tão radical e repentino quanto o primeiro, mas o desejável é que o processo do desmame seja gradual. O ideal é responder à s necessidades do bebé. Se nos primeiros meses um recém-nascido mama fundamentalmente para se alimentar e obtém como bónus calor e a segurança do amor da mãe, já um bebé com oito, dez ou doze meses continua a mamar por razões que se prendem mais com conforto e segurança do que com necessidades alimentares. Será que a criança não vai ficar muito dependente da mãe? Será que vai tornar-se mimada? Cristina Leite baseia-se em toda a informação que a La Leche League disponibiliza, mas também em toda a experiência como moderadora de reuniões com mães que amamentam, para responder peremptoriamente: «Não! Não há quaisquer consequências negativas por uma criança ter dois anos e mamar. Pelo contrário, pode tornar-se mais segura e confiante. É um miminho.» Leonor Levy partilha da mesma opinião: «Não faz mal nenhum mamar até aos dois anos. Só faz é bem! Tem é de haver regras, como em tudo. A maior parte dos pais, hoje, não educa para a autonomia, educa para a dependência e isso não tem nada a ver com mamar ou não até tarde. Não tenho muita experiência de desmames tardios no consultório. Tenho agora uma mãe que amamenta o filho com 20 meses. Dá de mamar de manhã é à noite e acho óptimo. É um bocadinho de mimo e um bocadinho de anticorpos.» Já Fernando Chaves considera que «não há quaisquer vantagens em prolongar a amamentação para além dos seis, sete meses. Acho que este ¿cordão¿ tem de ser cortado por volta dos seis meses. Quanto mais tarde largam a maminha, mais difÃcil é». Outro argumento que costuma ser utilizado como contra-indicação da amamentação prolongada é o facto de os bebés acordarem mais durante a noite, para mamar, do que aqueles que já foram desmamados. Fernando Chaves considera que esta crença não tem fundamento: «Há bebés amamentados que dormem a noite inteira e crianças que aos três anos ainda acordam de noite para beber biberão. Isso tem a ver com o ritmo de cada bebé, mais nada.»
BenefÃcios da amamentação Para o bebé:
favorecimento do desenvolvimento neurológico
protecção contra alergias
protecção contra intolerâncias
protecção contra infecções respiratórias
protecção contra problemas gastrointestinais
melhor saúde dentária Leonor Levy considera importante que «se dê ênfase ao prazer que amamentar pode dar. E que se fale das vantagens para a mãe e não só das vantagens para o bebé». São elas:
mais rápido regresso à forma fÃsica (o útero retoma o seu tamanho normal mais rapidamente)
redução dos riscos de cancro da mama pré-menopausa e cancro do ovário
redução dos riscos de certos problemas ósseos
a amamentação inactiva respostas de stress da mãe, pois a produção de prolactina e occitocina oferece uma sensação de tranquilidade
|